Em seguimento da última aula leccionada a 04/10 segue uma lista pros/cons
da afamada edição, tendo-se em mente que o objectivo será também de que seja
ampliada – ou contestada – por quem o desejar (não é, afinal, a minha lista de
supermercado). O conceito de edição tido aqui em conta foi o da edição como
preparação do produto (o rascunho) na melhor versão que é possível (a obra
final), incluindo este processo uma variedade de actividades modificativas,
desde a correcção à organização, reestruturação, condensação, ampliação, etc.
Ainda que a edição seja algo presente em toda a actividade criativa, foi tida
mais em conta a criação literária, o texto.
Prós:
– A possibilidade de criar um primeiro rascunho sem a preocupação de o
pretender já como produto final. A fusão entre a criação e a edição/revisão
aquando o acto de criação leva muitas vezes a que o autor trave, vendo-se
incapaz de prosseguir pela preocupação de criar logo à partida um produto
finalizado. Na maioria dos casos verifica-se que em vez de um produto passível
de edição o autor acaba sem nada (ou com documentos de histórias começadas e
nunca desenvolvidas).
(Durante Novembro decorre o desafio NaNoWriMo,
o qual consiste em escrever 50.000 palavras – a média de um romance – durante
esse mês. Não é coincidência que um dos conselhos mais repetidos pelos
organizadores seja Shut up your inner
editor.)
– Uma visão externa percebe o que já passa despercebido a uma visão
interna. O autor encara o próprio texto vezes sem conta enquanto o está a
escrever; pensa nele ainda que esteja em lazer; sabe já o que pretende
transmitir com determinado excerto. Tudo isto altera a sua percepção do texto,
vê-o a partir “de dentro”. Mas o leitor irá vê-lo “de fora”, não tem os mesmos
conhecimentos internos que o autor. A edição situa-se entre estas duas visões,
pelo que procura levar a que o conhecimento interno corra o melhor possível
pelo texto, seja através de cortes ou desenvolvimentos, eliminação ou criação
de dubiedades, alterações de estrutura, ou simplesmente correcção de gralhas,
tornando-o visível ao externo.
– Preparação do produto para o público. O autor poderá escrever
primeiro para si e só depois para os outros, mas a única forma de retirar
completamente os outros – o público leitor – da equação é guardar o texto na
gaveta. Não desejando fazê-lo terá de ter o leitor em conta, e por conseguinte
de preparar a história para o leitor, de acordo também com os objectivos pretendidos
com a obra em questão (lúdico? Académico? Outro?). A edição é também um “preparo”
tendo em conta o mercado pretendido.
Contras:
– A dificuldade de se delinear o que é edição e o que é co-autoria.
Até onde é que a intervenção do editor não se torna abusiva? Quando deixa de ser
um editor e se equipara ao criador? A isto junte-se a dificuldade acrescida
existente em muitos autores actuais de se desagradarem com quaisquer alterações
àquilo que criaram – algo que advém da visão da obra como “o meu bebé”.
– Onde existe a primazia quando há conflito entre autor e editor? A
propriedade intelectual pertence ao autor, sendo portanto dele a última
palavra. O editor, contudo, tem também o direito a não se associar a algo que
não considera estar ainda o melhor possível. Em caso extremo, a “parceria”
dissolve-se e, pelo menos naquele momento e entre aquele autor/editor, a obra
não avançará. Na maioria dos casos existe um compromisso feito ao longo da
edição, em que uns conselhos serão acatados, outros não. Tanto editor como autor
terão de trabalhar entre si qual caso é qual, pois não existe regra universal e
objectiva. Isto pressupõe uma abertura e disponibilidade de escuta/diálogo
entre ambas as partes nem sempre existente.
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