domingo, 30 de setembro de 2018

Vanity Press: A máquina de fazer livros


É uma prática que cada vez tem crescido mais no mercado editorial: pagar para ser publicado. Difere da auto-publicação por utilizar de terceiros que, supostamente, seriam intermediários entre o autor e todos os restantes elementos necessários para colocar um livro no mercado – muitos, no entanto, tomam esta opção pela ideia-sonho de terem um livro publicado “por uma editora”. A falta de critério e do cumprimento do que se propõem são, contudo, questões constantemente levantadas sempre que se fala destas editoras, chamadas vanity press. Ainda assim, o seu peso tem-se feito cada vez mais presente no mercado ao ponto de quem almeja publicar se “esquecer” não ser esta opção equivalente à de uma editora dita tradicional: começando logo pelo facto de ser o autor a figura que arca com as despesas de publicação, sem que para isso veja sequer aumentar a sua percentagem de lucro sobre o preço de capa.

Em Portugal, das empresas que seguem este modelo é a Chiado Editora que maior sucesso e destaque obtém. Deixo, para quem quiser aprofundar, dois artigos que, pegando neste caso em específico, podem ser alargados à generalidade do negócio:



(Curioso como “máquina de fazer livros” aparece a uma luz positiva num, e a uma luz negativa noutro.)

sábado, 29 de setembro de 2018

Bénard da Costa: fantasias que o cinema projetou no seu olhar.

Está a decorrer o lançamento do primeiro volume do primeiro tomo de uma edição da Cinemateca (livraria Linha de Sombra), com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, dos belíssimos textos (crítica, folhas de sala, anotações, pensamentos) de João Bénard da Costa. Está prestes a começar, mas ainda existem lugares. Apareçam!


p.s: Professor, o responsável pela livraria disse-me que, se enviar um email para a Cinemateca, todos os alunos de Edição de Texto têm um desconto (possivelmente de 50%) na compra do livro. Acha que seria possível estabelecer essa ponte?




A casa: ... revisor...



Revisor


Já que o tema da próxima aula será refletir sobre alguns "atores" do mercado editorial, fica aqui um texto de Saramago em relação aos revisores...


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Pela sobrevivência da(s) pequena(s) editora(s); causa dicta est.

Seja discutível ou não a pertinência desta publicação, entendi partilhar convosco um dos (muitos!) recentes projetos editoriais que me têm agradado. Falo das Edições do Saguão, que se apresentam como " (...) uma pequena editora de Lisboa, Portugal. Publica pouco, mas bem.", a qual "(...) nascida em agosto de 2017, (...) pretende publicar literatura e ensaio de autores nacionais e estrangeiros, em edições cuidadas com forma e grafismo que levem o leitor a um fruir pleno do exemplar que tem nas suas mãos". Cada edição é como que um pequeno tesouro em papel. 
Para que projetos como este consigam subsistir, é imprescindível o apoio e dedicação de todos os sérios-leitores.



p.s: escolhi as Edições do Saguão pela sua existência recente, mas não queria deixar de apontar (de cabeça; não pretende ser uma lista exaustiva) outros projetos independentes que têm contribuído para a edição de objetos graficamente cuidados e de valor literário inestimável: Letra Livre, Maldoror, Língua Morta, VS (do antigo criador da Fenda; sem website, mas cujos títulos podem ser encontrados em vários pontos de venda, incluindo a Livraria Flâneur), &etc (embora falecida em 2016, esta editora tem o que resta do seu catálogo à venda na Letra Livre), FLOP (projeto de co-fundind), E-primatur (outro projeto de co-fundind), Averno. Boas leituras!









Aula 2: em jeito de balanço


O que é um livro?  Um livro é uma coisa; uma coisa material que corresponde a uma coisa espiritual.
Um objecto físico que corresponde a uma unidade metafísica. Um produto com ideias dentro.
Os livros de que gostamos divertem ou instruem. Mas isso não é óbvio. Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, que em toda a tua filosofia.

Basicamente, a estrutura é a mesma para tudo. Cavaco e Marcelo são políticos, tal como Dilma e Bolsonaro. Todos temos, à partida, os mesmos órgãos internos, e dois, braços, duas pernas, dois narizes, quatro orelhas. Enfim, mais ou menos. Mas a ideia é clara.

O que varia? Nada e... tudo. Os pequenos nadas fazem grandes diferenças. Dois grandes escritores, portugueses, de simpatia comunista, contemporâneos, ambos defendendo valores parecidos, ambos candidatos favoritos ao Nobel (o maior legitimador vigente de 'qualidade literária') podem ser também perfeitos opostos: Saramago e Lobo Antunes. Não queiram saber o que um pensava do outro.

O que é um livro? (parte II) Um livro é valor: o valor que lhe atribuímos. O valor que cada um de nós atribui a um escritor, a um livro. Tal como o valor que atribuímos a uma criança varia consoante a nossa relação com ela: pai, tio, primo, colega, vizinho, desconhecido.

É isso que é interessante no livro: o seu valor é estranhamente flutuante. Os critérios de atribuição de importância são tudo menos óbvios. É uma relação, mais do que de «merecimento», afectiva.

Enamoramo-nos de uma pessoa. Chegamos aos nossos amigos e dizemos: «Esta/e é a mulher/o homem da minha vida.» Os nossos amigos acham exagerado mas, como são nossos amigos, aceitam - e, eventualmente, até se afeiçoam a essa nossa mais-que-tudo.
Um dia zangamo-nos. Acontece. O número de divórcios supera hoje em dia o de casamentos. E vamos ter com os nossos amigos: «Esta mulher/este homem destruiu a minha vida, é um/a monstro.» E todos compreendemos que isto se passe, embora do ponto de vista técnico seja absurdo: nem aquela pessoa era «a pessoa mais fantástica do mundo» nem virou, por magia negra, a pessoa «mais horrível do mundo».

A nossa relação com o livro não é muito mais sensata.

Por que motivo tem um livro ainda tanto valor, valor 'cultural'? «Ai, eu quando estou em casa leio um livro, não vejo televisão.» Por que motivo a televisão tem uma conotação menos positiva que «o livro», quando nós sabemos que, na prática, ela é muito mais popular?

Frankfurt: o templo do livro. A dor que foi não poder sequer ter inveja do rival que lucrou com o Nobel 2017.

O livro é um prototipo. Mesmo quando é do mesmo autor, é sempre diferente. Há que recomeçar de novo. Não tem as mesmas palavras, o mesmo número de páginas, não diz as mesmas coisas.

Gonçalo (pergunta sacana): no sistema do livro também há a mesma programação por objectivos, lucro etc.?

Henrique: o primeiro post no blog. Tem de valer alguma coisa. Como vos avalio, se uma participação espontânea (a melhor) não valesse alguma coisa?

Resposta: Bourdieu reconhece que há um campo literário. Um sistema com uma economia própria. Mas acrescenta que esse campo não se opõe, antes de algum modo reproduz, o sistema social onde se insere.

É risível pensar que o mundo do livro é estanque ao mundo cá fora. Tem nuances, sim, e por vezes ritmos diferentes. Em teoria, o livro tem um sistema de circulação sanguínea mais lento que o das publicações periódicas. E o local de distribuição do livro é, por definição, a livraria; para jornais e revistas é o quiosque. Um é lento (o livro dura), o outro é rápido (rotação diária, semanal ou, no máximo, mensal).
Em teoria.

O hipertexto: não há centro, tudo é periferia; não há periferia, tudo é centro. A nota de rodapé é o antepassado do hipertexto, bem como a bibliografia no final de um livro académico: um texto remete sempre para outro texto que, por sua vez, remete para outro texto... Fernando Pessoa é o campeão do hipertexto, com a sua dança de influências entre heterónimos. Ver o labirinto pessoano em arquivopessoa.net.





quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A revista The Writer, "a monthly magazine to interest and help all literary workers",
é uma das revistas norte-americanas mais antigas, sendo publicada continuamente desde 1887 até hoje.
Em openlibrary.org podemos encontrar alguns originais de 1890 a 1909. Mesmo publicados em finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, muitos destes artigos debatem problemas atuais do setor editorial. Fiz uma pequena seleção de artigos relacionados com os temas para a aula de amanhã: (1) "A literatura como um negócio"; (2) "O autor e o editor"; e (3) "Os nãos para os autores amadores".
Não totalmente relacionado, mas muito interessantes são os exemplos de edição de textos jornalísticos que intervalam os artigos da revista. Fiz uma destaque a um texto no mínimo curioso.
Henrique Pinto







AVISO - MUDANÇA DE SALA: TB16

A partir já de amanhã, a nossa disciplina será na sala TB16. (A torre onde estão os serviços académicos, 3º andar, salvo erro. 

sábado, 22 de setembro de 2018

Plano aula 2 - 27/9: três primeiros capítulos

Na próxima aula, tentaremos fazer uma primeira abordagem aos três primeiros capítulos do programa. O vosso trabalho  de preparação para a aula: pensarem um bocado no assunto.

A ideia é haver participação, mas dado sermos muitos convém sermos lestos. Participa quem quiser participar e agradeço alguma agressividade (leia-se: dinamismo, não engonhar) a quem quiser contribuir para enriquecer a aula.

Reparem como alguns pontos de interrogação tornam logo o desafio mais interessante:

O. Questões preliminares
0.1. O que é editar?
0.2. Um mundo em mudança?
0.3 Economia ou cultura?

1. Um livro é um livro?
1.1. A perspectiva do autor é igual à
1.2. perspectiva do editor?
1.3. E às outras: livreiro, distribuidor, Estado, media, leitor?

2. A natureza da edição
2.1. Livro, jornal, revista – o que edissão?
2.2. Coerência interna – a regra do jogo?
2.3. Uma actividade comercial ou cultural? 

Curiosidades avulsas: consegue arrumá-las?












quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Sumários

1ª aula (20/9) - Estabelecimento das regras básicas. Critérios de avaliação. Como funciona o blogue. As entradas do programa como questões que, nalguns casos, já trazem resposta implícita - noutros nem por isso.

1. T/T ou T/T? - Esta é uma cadeira teórica, mas com uma componente prática. Sem exemplos concretos (podem ser anedotas picantes) nem exercícios práticos, a teoria soa a oca.

2. Editar é estabelecer um diálogo. Num diálogo, ambas as partes têm alguma responsabilidade no sucesso/insucesso da comunicação. As variantes são infinitas, com duas balizas imaginárias: total responsabilidade de A, total responsabilidade de B.

3. Editar é... [preencha conforme lhe apetecer, terá uma surpresa ao reparar que quase tudo dá certo, como com os bonequinhos do «Amar é».]


4. Metáfora do pontapé estilo kung fu: na realidade é pouco prático ir com o pé à cabeça (distância maior e ficamos em desequilíbrio), mas a possibilidade faz com que o adversário divida as suas forças. Já não tem tanta certeza de que vamos fazer o óbvio. Aplicação teórica: há a técnica e há o golpe de asa, o improviso, a finta. A aplicação técnica é mecânica, eficiente, cria uma rotina e as rotinas são boas, facilitam a vida; mas é o lado inventivo que faz a coisa resultar ou não.


5. O salário justo - o caso do revisor que à sétima linha descansava. Incompetente ou, pelo contrário, profissional? É legítimo trabalhar de borla para ser competente? E um tradutor ganha mais ou menos que um empregado da limpeza?

(Há muitos anos cheguei a essa conclusão em relação ao ensino secundário: professor que não trabalhe mais do que aquilo por que é pago está condenado a ser incompetente. Na universidade é menos mau, embora eu esteja a escrever estas notas às oito da manhã de sábado)

6. Publicar muitos livros e defendê-los menos bem ou publicar poucos e investir neles? A resposta não é óbvia. Hoje há muito a cultura do atirar barro à parede.

7. Elogio do descobrir-a-pólvora: toda a gente nesta sala sabe já mais do que julga sobre edição. Sim até as pessoas que já trabalham na área, por estranho que pareça. Se alguém vos falar de um policial entusiasmante e de repente vos disser o nome do criminoso não estará a ajudar-vos, apenas a (com esse SPOILER) sonegar o prazer de ler.

8. Exercícios íntimos - Que livros anda a ler? Quantos compra por mês? Se gosta de teatro, por que motivo vai tão pouco? Por que motivo acha que «os livros estão tão caros»? Os livros estão mesmo «tão caros»? Quais as suas sete livrarias favoritas? Prefere poesia ou ficção? Por que motivo as pessoas mentem não só aos outros mas também a si próprias? Se nós mesmos - que queremos ser gente da edição - frequentamos pouco, o que nos leva a censurar quem está mais a leste? Qual a diferença entre o lápis e a caneta num exercício de revisão? Por que razão não vai ao Japão? Por que motivo é o teatro (afirmação minha mas, como tudo o que digo, justíssima) o elo mais fraco da literatura portuguesa?

9. Faça uma lista: de um lado as práticas culturais que acha que tem, do outro o que fez durante a semana.

10. Desafio TPC: escolha uma entrada (ou mais) do programa e faça um verbete de, digamos, 20 linhas. (Pode ser mais, mas isso chega, se achar que chega.)









Plano


Programa

O. Questões preliminares
0.1. O que é editar?
0.2. Um mundo em mudança
0.3 Economia ou cultura?

1. Um livro é um livro?
1.1. A perspectiva do autor
1.2. A perspectiva do editor
1.3. Outras: livreiro, distribuidor, Estado, media, leitor

2. A natureza da edição
2.1. Livro, jornal, revista – o que edissão
2.2. Coerência interna – a regra do jogo
2.3. Uma actividade comercial ou cultural? 

3. A casa
3.1. Pequeno grande editor
3.2. Marcar a diferença, conhecer o mercado
3.3. Tradutor, revisor, designer, paginador, marqueteiro
3.4 Ciência, arte, lotaria – racionalidade e irracionalidade

4. O jogo dos papéis
4.1. O editing – prós e contras
4.2. A edição crítica
4.3. Do filho de Eça de Queirós a Gordon Lish

5. O Caso da Ameaça Eletrônica
5.1. Do Bubble Gum ao Bubble Blog
5.2. Novos suportes, velhos importes
5.3. Um romance é igual à Enciclopédia Britânica?
5.4. Admirável mundo novo: ibuques, dibuques, amazonas

6. Da edição amadora à edição profissional
6.1. Autor morto, autor posto
 6.2. O contrato do desenhador
6.3. Onde pára o livro?
6.4. Os novos marcadores: grandes grupos, escuteiros, marqueteiros

7. Os parceiros do livro
7.1. Livrarias, alfarrabistas, hipermercados
7.2. A feira permanente
7.3. Prémios literários, importações, exportações
7.4. O Estado, programas de apoio
7.5. Os órgãos de comunicação
7.6. A morte do artista

8. Estudos de caso 
8.1. Companhia das Letras: sete pecados capitais
8.2. O editor de actas
8.3. [A preencher quando soubermos o quê]
8.4. A Booktailors - Consultores Editoriais

9. O futuro do livro
9.1. Do livro electrónico
9.2. Do livro em papel
9.3. Os papéis do livro
9.4. Nada Tudo está por inventar

10. O que quero ler/editar?
10.1. Artesanato ou indústria?
10.2. Arte ou ciência?
10.3. Sonho lindo ou realidade deprimente?
10.4. Publicando the Great American Novel
10.5. O feiticeiro de Oz

Bibliografia geral
 ● BACELLAR, Laura, Escreva seu livro – Guia prático de edição e publicação, S. Paulo, Mercuryo, 2001
● BAILEY, Herbert S., The Art & Science of Book Publishing, Athens, Ohio U.P., 1990
● BARZUN, Jacques, On Writing, Editing, and Publishing, Chicago, CUP, 1986
● BLASSELLE, Bruno, Histoire du Livre, Paris, Gallimard, 1998
● CALVINO, Italo, Se numa Noite de Inverno um Viajante, Lisboa, Teorema, 2000
● DUCHESNE, A., LEGUAY, Th., Petite Fabrique de Littérature, Paris, Magnard, 1984
● ECO, Umberto, O Pêndulo de Foucault, Lisboa, Difel, 1998
● EPSTEIN, Jason ((2002), Book Business - Publishing Past, Present and Future, Nova Iorque: Norton
● ESCARPIT, Robert, Sociologie de la Littérature, Paris, P.U.F., 1986 [1958]
● COSTA, Sara Figueiredo, Fernando Guedes - O decano dos Editores Portugueses, Lisboa, Booktailors, 2012
● COSTA, Sara Figueiredo, Carlos da Veiga Ferreira - Os Editores não se abatem, Lisboa, Booktailors, 2013
● FURTADO, José Afonso, Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação, Lisboa, Livros e Leituras, 2000 
● FURTADO, José Afonso, A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, Lisboa, Booktailors, 2009
● GROSS, Gerald (org.), Editors on Editing – An Inside View of What Editors Really Do, Nova Iorque, Harper & Row, 1985 [1962]
● GUTHRIE, Richard, Publishing - Principles & Practice, Londres, Sage, 2011
● JACKSON, Kevin, Invisible Forms, Nova Iorque, St. Martin’s Press, 2000
● LUCAS, Thierry, Le Guide de l’Auteur et du Petit Editeur, Lyon, AGEC-Juris, 1999
● MORFUACE, Pauline, Les comités de lecture, Ecrire et Éditer 3, Vitry, Publ. Du Calcre, Março 1998
● SAAL, Rollene, (The New York Public Library) Guide to Reading Groups, Nova Iorque, Crown Publ., 1995
●SCHIFFRIN, André, O Negócio dos Livros, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2006

● Outras fontes a consultar: APEL, UEP, revistas literárias, blogs sobre edição e livros na Internet Tedi09.blogspot.com, Blogtailors…

Cinco capas boas e cinco capas más

  Aqui estão as minhas escolhas para a tarefa desta semana, de onde tentei extrair o máximo possível de críticas, desde a escolha das cores ...