Mostrar mensagens com a etiqueta tradução. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta tradução. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O que vamos ler em 2019?

Para quem não teve oportunidade de estar presente no evento "O que vamos ler em 2019? A receita dos tradutores", no Museu da Farmácia, ficam aqui alguns apontamentos que fui tirando durante a sessão.

A conversa foi gravada e será emitida na Antena 2 neste sábado à tarde, pelo que percebi. No entanto, não sei a que horas será, pois não aparece na programação online. Também ficará disponível em breve a lista completa de receitas das editoras para 2019 e, entretanto, disponibilizo aqui as imagens da lista que nos foi fornecida no local.





Apontamentos e reflexões


  • Ao traduzir, dá-se preferência a expressões com um determinado ritmo e naturalidade na língua e cultura de chegada. Pelo contrário, evita-se expressões que acarretem duplo sentido ou que já tenham caído em desuso.


Livro escrito pelo autor (Língua A) -> Livro traduzido (L. B) -> Livro traduzido de forma mediada (L. C)
(Serão todos diferentes? Será o primeiro mais distante do terceiro do que do segundo? E em que sentido?)


  • O nome dos tradutores (aqueles que nos abrem a porta para tantas línguas) são esquecidos quando se fala dos livros: refere-se logo o conteúdo e a escrita (associada ao autor). Tal se sucede inclusive com os próprios tradutores profissionais.


Maria do Carmo Figueira

  • Na altura em que foi para a faculdade, não havia curso de tradução, pelo que tudo o que aprendeu nessa área adveio da experiência de vários anos.
  • Um dos piores problemas dos tradutores portugueses é a falta de conhecimento da língua portuguesa.
  • Legendagem VS Tradução Literária: ao fazer legendas para filmes e séries, há que haver uma grande capacidade de consisão e de corte, pois as mesmas estão limitadas a X número de caracteres. Já na tradução de literatura, há mais espaço para a criatividade.
  • Conhecer o autor de um texto passa por ler e traduzir várias obras do mesmo, pois o contacto direto é muito raro e muito pouco incentivado pelas editoras. Assim sendo, traduzir acaba por ser um trabalho de detetive. A ocasião em que mais se aproximou da origem da história foi quando visitou o local no qual esta se passava.
  • A tradução é sempre um trabalho que envolve muitas pesquisas, inclusive de temáticas e de épocas, pelo que se acaba por aprender muito sobre várias áreas.
  • Um dos livros que lhe deu mais gozo traduzir foi o Cinzas de Ângela.

Tânia Ganho

  • Algo que costuma ser muito comum entre tradutores é a necessidade de ter o seu próprio espaço, de estar sozinho com as palavras do autor, de trabalhar ao seu próprio ritmo.
  • A tradução literária permite ao tradutor inventar e alongar-se nas palavras. Não precisa de e chega até a ser preferível não possuir uma linguagem tão direta e de significado explícito. É bom haver espaço para a interpretação do leitor. No caso da tradução em cinema, há que haver maior rigor, concisão e simplicidade, uma vez que a mensagem aparece num curto intervalo de tempo e, por isso, deve ser facilmente compreendida por todos.
  • Aprende-se muito com os revisores: os jovens tradutores ainda vão cometer muitos erros e a aprendizagem nunca tem fim.
  • Quando a pesquisa não ajuda na interpretação de determinada passagem do texto a traduzir: 1.º contacta amigos ingleses e expõe as suas dúvidas; 2.º Quando os amigos de língua materna inglesa também não percebem, tenta pedir o mail do autor, mesmo sendo muito pouco provável responderem. A maioria dos autores não se apercebe dos problemas de tradução que podem advir da sua escrita, nomeadamente no que toca a trocadilhos e jogos de palavras com sons idênticos.
  • Acredita que se torna mais motivante começar logo a traduzir sem ter lido a obra, pois vai descobrindo a história enquanto traduz, para além de que haverá muitas revisões e releituras posteriores. "Atacar sem ler primeiro" parece ser uma abordagem muito comum na tradução literária, que envolve textos de centenas de páginas.
  • O livro original e o livro traduzido estão associados a leituras completamente diferentes da mesma obra.
  • Ao ler por prazer, como um leitor habitual, a atenção ao detalhe é muito menor o que faz com que muita coisa passe despercebida. É ao traduzir que se nota a quantidade de coisas que terão escapado aquando de uma primeira leitura mais rápida.
  • Recomendação: A Vida em Surdina

Daniel Jonas
  • Traduziu letras de músicas e poesia.
  • Um tradutor pressupõe um superleitor, que presta redobrada atenção aos detalhes.
  • A tradução é um jogo hermético e psicótico, incluindo uma certa obsessão pela obra que se traduz.
  • Recomendação: Paraíso Perdido, por John Milton.

Alda Rodrigues
  • Escreve no blogue: http://cinefilopreguicoso.blogspot.com/
  • Trabalhou em tradução para dicionários bilingues, o que acarreta uma maior abrangência e representatividade, pois é necessário juntar todas as acessões de uma palavra numa só entrada.
  • Ao começar a trabalhar em tradução literária, altera-se o paradigma, pois é necessário recorrer à precisão para encontrar a palavra que melhor se adequa no contexto em questão.
  • Os prazos são muito apertados e a produção imposta pode acarretar um trabalho de muitas horas seguidas, mas é importante haver momentos de pausa para "refrescar as ideias".
  • No final, os tradutores reveem as provas revistas. Alda Rodrigues respeita a opinião do revisor e aceita todas as alterações a não ser que detete correções de coisas que estavam certas ou erros adicionados pelo próprio revisor. Há portanto, comunicação entre ambos, ao contrário do que acontece com o autor.
  • A tradução implica muitas pesquisas relacionadas com determinadas terminologias e áreas do saber, sendo de notar a obsessão que se cria pela obra.
  • Uma obra que lhe foi difícil traduzir, mas que também por isso lhe deu muito prazer: Tempo de Silêncio, de Patrick Leigh Fermor (Tinta da China).

Paulo Faria
  • O tradutor é alguém que vive num estado de constante insatisfação (não paralisante).
  • É muito limitador pensar que não podemos fazer bem algo que foge da nossa formação inicial (refere o tradutor que se licenciou em Biologia). A verdade é que existem melhores tradutores que nunca tiveram formação na área do que muitos que tiveram mas não têm motivação para o fazer com qualidade. Para além disso, é preciso ler muito para conseguir traduzir bem.
  • Há uma constante vontade de refazer o trabalho de tradução, inclusive quando a obra já está publicada.
  • Se quisermos ler até ao fundo, acabamos a traduzir.
  • Organização: dividir o número de páginas a traduzir pelos dias que faltam até ao prazo final, comprometendo-se com esse número, quer se demore mais ou menos tempo em cada dia.
  • Há muitos livros que estão a ser publicados em más condições devido à nova tendência de publicar cada vez mais obras em menos tempo. Não é possível fazer um trabalho decente quando os tradutores se tornam uma linha de produção com limites demasiado apertados.



  • Ilusão: o leitor deve acreditar que as palavras traduzidas são as do autor (mesmo tendo noção que este último desconhece a língua para a qual o livro foi traduzido). A melhor tradução é aquela na qual não se repara.
  • No entanto, o tradutor é lembrado quando se descobrem os erros, por mais pequenos que sejam, os quais acabam por ser fortemente criticados. Se é para fazer uma crítica, esta deve ser equilibrada, falando não apenas do que correu pior mas também daquilo que o tradutor conseguiu resolver com qualidade.
  • A tradução é uma área profissional que acarreta pouco reconhecimento e enriquecimento.
  • No mercado de tradução literária, os melhores tradutores portugueses ganham cerca de 7-10€ por página, o que é muito pouco comparado com outros países. Tânia Ganho relembra uma situação em que, estando a traduzir o mesmo livro, ela recebia 9€ por página enquanto um tradutor francês recebia 21€ e um inglês 30€.
  • Os revisores são ainda mais mal pagos do que os tradutores.
  • Traduzir é um trabalho a tempo inteiro: nunca se sabe quando nos vai ocorrer a resolução de um problema de tradução.
  • Antes, para ser tradutor, era preciso saber muito mais do que hoje, pois agora a tradução é facilitada pelas novas tecnologias (facilidade de acesso).
  • Cada vez a tradução é menos falada pelos media e pela população em geral, não se reconhecendo que há um intermediário que permitiu essa leitura em primeiro lugar. Ao consultar livrarias online, na maior parte das vezes nem se informa sobre o nome do tradutor.
  • Já não se publicam muitas recensões literárias.
  • O departamento financeiro acaba por ter mais poder, muitas vezes até que o editor, pelo que a decisões não dependem apenas deste último e das suas possíveis melhores intenções. 

Termino com uma imagem da lista de receitas dos tradutores para 2019, também fornecida no local.



quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Intercultural Literature in Portugal - Uma bibliografia crítica


Ultimamente, tenho andado a trabalhar num projeto na CEAUL (Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa) que pode ser do vosso interesse. Chama-se "Intercultural Literature in Portugal" e pretende servir como uma bilbiografia crítica de literatura traduzida e publicada sob a forma de livro em Portugal de 1930 a 2000. Este projeto surge no seguimento do trabalho de A. A. Golçalves Rodrigues, que já divulgou em cinco volumes da obra A Tradução em Portugal as traduções publicadas entre 1495 e 1930.


Neste momento, a base de dados de acesso livre está disponível online através do site http://www.translatedliteratureportugal.org/ e já conta com 20.200 registos referentes ao período de 1930 a 1981. Estamos a trabalhar na expansão da mesma com pesquisas online em várias bibliotecas nacionais correspondentes à língua dos textos de partida e consultas presenciais dos volumes traduzidos na Biblioteca Nacional de Portugal.


Resumindo e complicando, esta base de dados resulta, portanto, de:
  1. uma reflexão inicial sobre os conceitos de tradução e de literatura; 
  2. identificação de informações potencialmente relevantes para um investigador em Estudos de Tradução, de modo a criar uma matriz de dados a incluir em cada registo;
  3. identificação de fontes de referências bibliográficas para obras de partida e de traduções;
  4. identificação de uma metodologia a seguir por todos os investigadores do projecto, tendo como objectivo a uniformização dos dados;
  5. criação de listas iniciais de textos literários traduzidos para português e publicados em volume em Portugal;
  6. localização e verificação de cada volume para garantir a confirmação e/ou correcção e/ou adição de dados;
  7. revisão dos registos;
  8. criação de um website para disponibilização online e em acesso livre da base de dados; 
  9. actualização períodica da base de dados com novos dados, repetindo-se os passos 5 a 7.
E para que serve?
Sendo uma bibliografia crítica, serve como uma ferramenta de trabalho para investigadores no âmbito de estudos mais aprofundados sobre a história da literatura e da tradução em Portugal, abrindo um leque variado de outras pesquisas. Trata-se, igualmente, de um contributo para a memória do Estado Novo e anos subsequentes, pois pretende evitar o esquecimento de uma parte substancial da história cultural da ditadura portuguesa, tendo em conta que a tradução sempre constituiu uma parte considerável da cultura literária do nosso país.

Se tiverem alguma questão relacionada com o projeto, não hesitem em falar comigo ou perguntar nos comentários.

Cinco capas boas e cinco capas más

  Aqui estão as minhas escolhas para a tarefa desta semana, de onde tentei extrair o máximo possível de críticas, desde a escolha das cores ...