Comer um livro
Inês Carvalhal
10. O que quero ler/editar?/ 6.3. Onde pára o livro?/ 0.1. O que é editar?
Há cerca de uma semana estava a
prepara uma tarte de alho-francês assado, Feta e Dijon enquanto pensava no que
tinha para dizer sobre edição. Foi quando barrava o creme de Feta na base para
tarte previamente picada, que me apercebi de quanta comunhão cozinha —
edição/publicação existia na minha vida.
Foi na minha adolescência que comecei
um affair descomprometido com as duas: jantares com especiarias novas e
fins-de-semana em corte e colagem com fanzines punkitas.
A primeira revista que tive chamava-se
Sheena. Construíamo-la — eu e amigos — nos intervalos da escola com
uma linha editorial no limiar da homeostase. Tivemos um número dedicado à
banda-desenhada, os outros só com desenhos, colagens e textos vagamente aleatórios.
Mais tarde ingressei em projectos que
apesar de mais estruturados continuavam a carregar um relativo
descomprometimento.
Sempre cozinhei e felizmente sempre gostei de me cansar na
cozinha. Foi no início da minha vida adulta que este hobbie se revelou o
meu maior aliado, ajudando-me a pagar renda e férias não pagas.
Para lá de quaisquer casualidades,
existem, a meu ver, questões processuais bastante similares na construção de um
livro e na confecção de uma refeição: podemos seguir um plano editorial rigoroso,
com calendários quase inflexíveis, como podemos mergulhar no rigor da cozinha sous
vide; podemos fazer cozinha de fusão e publicações ambicionas; podemos
entrar num projecto editorial super experimental ou criar a refeição
mais surpreendente com os restos que temos no frigorifico; é sabido que sal e
gordura são os elementos imprescindíveis para um prato de salivar, tal como a
dose certa de suspense e de romance é igualmente saborosa.
Qualquer que seja a fórmula
escolhida, o que me continua a fascinar nas duas situações é precisamente a
variedade e flexibilidade de escolha que temos quando metemos as mãos na massa
para dar algo novo à luz do dia, para mim tendo sempre presente a definição — que
apesar não a saber, já a sabia — de punk dada na segunda aula: eu
não sei mas faço na mesma.
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