terça-feira, 2 de outubro de 2018

Editoras: "máquinas de fazer livros"?


Remetendo para o post de dia 30 de setembro publicado pela colega Inês Montenegro, o qual suscitou o meu interesse, gostaria de deixar aqui um comentário que poderá abrir portas para uma possível discussão.

É interessante analisar o fenómeno da Chiado Editora, a tão afamada “máquina de fazer livros”. Se por um lado, esta foi a única editora que se disponibilizou a publicar (e unicamente isso) os livros de duas pessoas que conheço, revelando ser - aparentemente - acessível, por outro, conseguimos perceber que é uma editora que se preocupa somente com números.

É referido no artigo "O homem sonha, a Chiado Editora publica e a obra nasce" (constante no link sugerido no post de dia 30), que “A Chiado publicou nos últimos meses mais de 1.500 novos títulos, no conjunto das suas chancelas nacionais e internacionais”. Contudo, quantidade não significa necessariamente qualidade... Não é de todo humanamente possível fazer um bom trabalho de edição de uma obra, indo desde a sua revisão, eventuais traduções, paginação, publicação e divulgação e afins com um número tão absurdamente elevado de obras a serem publicadas mensalmente. Do outro lado do espectro, existem as editoras ditas mais convencionais, como a Tinta-da-China (também referenciada no artigo), que faz a publicação de cerca de 60 obras por ano, elaborando um trabalho cuidado e minucioso em termos editoriais e sem nunca descurar o grafismo, por forma a obter como resultado final uma obra de agradável leitura.

Pegando então na questão que o Gonçalo levantou na última aula, relativamente à definição de objetivos comerciais por parte das editoras, conclui-se que a Chiado leva esse aspeto ao extremo e poder-se-á até considerar que o seu único objetivo é publicar o maior número de livros possível, não tendo como um dos seus principais focos a qualidade. Tendo em linha de conta apenas a quantidade, é lógico que a editora não tem tempo nem recursos para fazer uma boa revisão das obras. Tenho como exemplo disso, um livro publicado por uma das pessoas supracitadas, o qual tive a oportunidade de ler. Apercebi-me que ao longo de todo esse livro havia incontáveis erros ortográficos, erros de sintaxe e outros, o que, lamentavelmente, tornou a minha leitura penosa. Já o livro publicado pela outra pessoa, proporcionou-me uma leitura mais agradável, mas creio que principalmente pelo facto de que esta segunda pessoa tem bastante mais experiência a nível de escrita do que a outra e porque, muito provavelmente, ela própria reviu o seu livro na íntegra. Posto isto, creio que um dos papéis primordiais de qualquer editora é auxiliar o autor e rever toda a sua obra, bem como prestar também apoio na divulgação da mesma, não deixando esta tarefa a cargo apenas do autor.

Hoje em dia, ser-se publicado através da Chiado Editora acaba por ser tornar numa mancha na reputação de um autor. Este perde, quase que logo à partida, a credibilidade literária que poderia vir a alcançar. É realmente uma pena que certos bons autores mais desconhecidos não consigam ter a oportunidade de verem os seus livros publicados em editoras mais dedicadas. A Chiado Editora não será a única editora do estilo “máquina de fazer livros”, mas é certamente um dos mais flagrantes exemplos disso.

Afinal de contas: será que a Chiado Editora tem tudo para dar certo no panorama português e no nosso mercado editorial ou irá algum dia “rebentar pelas costuras”?

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